Arquivo | agosto, 2014

Nascido das cinzas – Sabão ancestral

5 ago

Olá! Vim hoje falar da gratificante experiência que tive ao fazer o antigo sabão de cinzas.

Há alguns anos tomei conhecimento da existência desse sabão feito somente com cinzas, gorduras e água. Sim, só isso. E funciona!

Primeiro um pouquinho de história.

Esse é o primogênito, a primeira espécie de sabão que existiu. E, como muita coisa nesse mundo, ele foi feito por acaso. Algumas histórias contam que os humanos se aperceberam dessa criação em altares de adoração, outras histórias falam que o “descobrimento” do sabão remete ao início do costume de ingerir carne. Bom, nas duas versões, o princípio foi o mesmo: a gordura de animais mortos (em sacrifício ou para saciar a fome) se misturava às cinzas das fogueiras e acabava formando uma pasta com poder de limpar os cabelos, os utensílios, e tudo mais que estivesse gorduroso.

Apesar dos incontáveis anos, e das outras tantas técnicas de saboaria, os sabões pretos feitos de cinza ainda hoje são utilizados, e muito conhecidos por sua incrível capacidade de fazer bem pra pele.

O clássico sabão preto marroquino, usado em spas por todo o mundo é feito a partir de cinzas, azeite de oliva e da própria azeitona esmagada. É considerado um esfoliante inigualável. Vem em potinhos, e tem a textura pastosa.

Sabão marroquino

Sabão marroquino comercial

Uma pasta que quase faz milagres. No Marrocos ainda se encontra esse sabão feito de forma extremamente artesanal, e vendido à granel nas feiras.

Sabão marroquino na feira

Sabão marroquino na feira

Há também o sabão preto africano, que é feito com óleo de palma, palmiste, coco, mel e cinzas de palmeira, bananeira e de casca de cacau. Esse sabão possui ferro e vitaminas A & E por essa composição e é usado também como shampoo e como máscara para o rosto: um item de beleza!

Sabão preto africano

Sabão preto africano

Independente de onde venha, o sabão feito a partir de cinzas é boníssimo para a pele. Extremamente suave. Incomparável. A cinza é o componente alcalino que produz a saponificação das gorduras, a base forte necessária para o processo. Ela faz a função que vemos normalmente exercida pelo NaOH, a soda cáustica. Essa substituição torna o sabão muito mais delicado, beneficiando muito a pele.

Agora, a minha história com esse sabão.

Pesquisei bastante, vi que as formulas são um tanto incertas, e li várias coisas divergentes sobre a manufatura. Com isso, e com dicas de quem já fez, tirei algumas conclusões e me aventurei, ainda na incerteza.

A primeira coisa que se descobre é que não existe receita! Talvez por isso eu tenha demorado uns quatro anos para pôr em prática isso.  Tá, não existe receita porque cada cinza é diferente. Cada tipo de madeira, ao ser queimada, produz cinza com uma certa porcentagem de basicidade, que vai afetar na saponificação.

É bem importante que a cinza escolhida seja confiável, de madeira sem nenhum tipo de pintura ou tratamento, e sem cinzas de outras coisas (muita gente aproveita o fogo pra queimar lixo, se liguem!). Tenho a sorte de conhecer uma pessoa sensacional, que vive num sitiozinho, planta tudo orgânico e queima só madeira de poda das árvores no fogão à lenha. Dona AnA, beijão pra senhora!

O que fiz foi coar a cinza em um pano grosso, como se coa café, mas com água em temperatura ambiente. Há quem diga que se deve fazer furos num balde, socar a cinza lá e deixar a água “lavar”, há também a técnica de ferver a cinza com água e simplesmente separar o líquido depois. Bom, escolhi aquele jeito porque me pareceu o mais prático.

Decoada - de coada

Decoada – de coada

A essa água se dá o nome de decoada, ela é rica em hidróxido de potássio, a base forte necessária para fazer o sabão. Como falei, não há receita, mas para terem uma ideia eu obtive 9L de água de decoada a partir de 1,5kg de cinzas.

O próximo passo é o fogão. E deve-se ter um adicional de paciência. Nessa receita usei 250g de gorduras: 150g de óleo de palmiste e 100 de manteiga de cupuaçu. Sabendo que esse sabão não iria ficar tão duro nem não espumoso quanto os sabões feitos com soda, quis aumentar um pouco essas características com a escolha da gordura. Apesar de que essas não são características que definem um bom sabão! Falarei disso mais tarde.

Nem tudo que parece brigadeiro é.

Nem tudo que parece brigadeiro é.

Bom, resumindo: coloca-se a gordura em uma panela (que não seja de alumínio) no fogo e vai se adicionando aos poucos a água decoada. Usei os 9L que consegui e teria colocado mais se houvesse, porque não estou bem certa de que foi suficiente.

O ponto se define pegando um pouquinho para lavar as mãos. Se não tiver pronto ainda vai se comportar como margarina, só vai melecar. Se tiver pronto, vai promover uma limpeza bem suave, com poucas espuma, mas uma sensação bem boa. E é isso. Simples assim.

O detalhe é que, no meu caso, a tal panela ficou 20h no fogo. Mas ao menos dá pra desligar e continuar no dia seguinte. Aqui foram 4 dias em função. Foram três para preparar a decoada e cozinhar e o quarto dia apenas para perfumar e colocar nas forminhas.

Forminhas provisórias cheias

Forminhas provisórias cheias

Bom, agora é esperar alguns meses para que esse sabão seque e possa ser usado como sabonete em barra. Também se pode usar assim, em pasta, sem problemas. Hoje recebi uma dica bem legal: Como esse sabão é danado para secar, é preferível que fique em formas pequenas e de madeira, ou outro material poroso, para facilitar a secagem.

Olha, eu sou uma pessoa bem paciente, mas confesso que foi difícil. A forma de fazer é super simples, mas bem trabalhosa. A decoada demora, e faz muita sujeira. No cozimento, se botar muita água passa por cima da borda da panela, se botar pouca, queima. Na hora de enformar é uma melaceira, porque a massa fica grudenta, e é difícil de entrar na forma.

Apesar de tudo, é extremamente gratificante! Ver que de simples cinzas se faz um sabonete maravilhoso faz valer a pena o esforço. E esse sabonete é realmente especial. Tive o privilégio de conhecer o sabão de cinza através de mãos habilidosas e pude conhecer a suavidade da limpeza que ele promove. Dona AnE, beijão pra senhora!

Bom, acho que deu pra perceber o quanto é especial esse sabão. Então, por favor, preste atenção aos detalhes ao botar isso em prática. Obtenha cinza de confiança, limpinha. Escolha bons óleos, de qualidade. Não use NaOH para acelerar o processo, isso destrói a característica primordial do sabão. E perfume com óleos essenciais ou compostos totalmente naturais, de procedência garantida; graça nenhuma jogar uma essência sintética fedorenta num sabão especial assim, né?

Fiz o sabão no meu fogão normal de casa, à gás. Mas acredito que, tendo um fogão à lenha aceso no inverno para esquentar a casa (e já produzir cinza), e um tacho grande que possa ficar por ali, seja mais fácil e barato fazer esse sabão. Além de poder contar com as qualidades mágicas do fogão à lenha, que faz as melhores comidas, e deve também fazer o melhor sabão!

E por aí, não bateu a vontade de conhecer esse sabão fabuloso?

 

Algumas de minhas pesquisas para esse artiguinho foram aqui, aqui, aqui e aqui.